José Dilermando Meireles[1]
Sempre que ia à sua fazenda, nos fins de semana, o chefe se fazia acompanhar do seu motorista de confiança.
A fazenda era distante, isolada, de modo que nem sempre era possível ter-se ali aquelas refeições que se deseja após uma longa e cansativa viagem.
Além disso, o chefe era mão fechada e não se esforçava muito por cuidar de provisões de alto custo.
Confidenciava o motorista que ele até costumava dormir sempre que passavam por algum lugarejo provido de mantimentos e evitava tomar conhecimento dos restaurantes e lanchonetes ao longo do caminho.
Numa dessasfrequentesviagens, o motorista pensou e decidiu: desta vez não vou esperar pelo chefe; eu mesmo vou tomar a iniciativa de levar umabastecimentozinho.
Ao pararem num posto de gasolina, comprou de um vendedor, que por ali passava, uma franguinha no ponto para um delicioso ensopado.
Agasalhou-a bem ecolocou-ano porta-malas,sem que o chefe aparentemente o houvesse percebido.
Ao chegarem à fazenda, retirou do carro a franguinha emostrou-aao chefe, dizendo:
-Veja, Doutor, o que trouxe para nós saborearmos.
-Mas o que é isso, Mozar, indagou como que tomado de surpresa o chefe burocrata.
- Uma guinezinha que comprei pra gente matar a fome no jantar!
- De jeito nenhum,-respondeu o chefe, com decisão-aqui não se mata nada. Somente se cria!-e soltou da mão do motorista a galinácia, que saiu alegremente a correr e a cacarejar no meio das outras pelo quintal da fazenda, até desaparecer no cipoal da densa capoeira.