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Abril 2011
A franga que escapou do ensopado

José Dilermando Meireles[1]

Sempre que ia à sua fazenda, nos fins de semana, o chefe se fazia acompanhar do seu motorista de confiança.

A fazenda era distante, isolada, de modo que nem sempre era possível ter-se ali aquelas refeições que se deseja após uma longa e cansativa viagem.

Além disso, o chefe era mão fechada e não se esforçava muito por cuidar de provisões de alto custo.

Confidenciava o motorista que ele até costumava dormir sempre que passavam por algum lugarejo provido de mantimentos e evitava tomar conhecimento dos restaurantes e lanchonetes ao longo do caminho.

Numa dessasfrequentesviagens, o motorista pensou e decidiu: desta vez não vou esperar pelo chefe; eu mesmo vou tomar a iniciativa de levar umabastecimentozinho.

Ao pararem num posto de gasolina, comprou de um vendedor, que por ali passava, uma franguinha no ponto para um delicioso ensopado.

Agasalhou-a bem ecolocou-ano porta-malas,sem que o chefe aparentemente o houvesse percebido.

Ao chegarem à fazenda, retirou do carro a franguinha emostrou-aao chefe, dizendo:

-Veja, Doutor, o que trouxe para nós saborearmos.

-Mas o que é isso, Mozar, indagou como que tomado de surpresa o chefe burocrata.

-  Uma guinezinha que comprei pra gente matar a fome no jantar!

-  De jeito nenhum,-respondeu o chefe, com decisão-aqui não se mata nada. Somente se cria!-e soltou da mão do motorista a galinácia, que saiu alegremente a correr e a cacarejar no meio das outras pelo quintal da fazenda, até desaparecer no cipoal da densa capoeira.



[1]Faleceu em 1998 e ocupou a Cadeira n.º 12 na AGL

 

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