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Outubro 2010
Memória Árabe da cidade de Anápolis

Ubirajara Galli


Foi na solenidade da Academia Goiana de Letras em que era homenageado postumamente o confrade José Asmar que, pela primeira, vez tive a oportunidade de iniciar uma admiração profunda pelo seu irmão mais velho, João Asmar, que, representando a família naquele momento de profunda emoção, falou de improviso, demonstrando uma oralidade poucas vezes vivenciada pela entidade.
Posteriormente convidado pelo escritor-editor Iúri Rincon Godinho, diretor-proprietário da Contato - Comunicação, para escrever a biografia de José Asmar, patrocinada por seu primo do lado materno, Habib Temer Badião, para saber mais e muito mais sobre meu colega acadêmico, Diana e Rafaela, respectivamente, viúva e filha de Asmar, indicaram-me que procurasse seu mano João Asmar.
Portando o número do telefone de João Asmar, uns dois dias depois, liguei para ele. Melhor recepção ao meu intento seria impossível. Para ir a Anápolis encontrar com João Asmar, convidei meu dileto amigo e escritor, Geraldo Coelho Vaz. No dia combinado, na movimentada avenida São Francisco de Assis, descemos do carro e fomos recebidos na calçada da casa erguida por João Asmar, na década de cinquenta, ele, estampando um farto sorriso à generosidade peculiar da cultura árabe em tão bem acolher as pessoas em suas casas.
Depois das naturais preliminares, de quem é apaixonado pela literatura, sobretudo, pela história de Goiás, com a sua memória privilegiadíssima, João Asmar nos abasteceu de informes sobre seu irmão, desde seu nascimento à sua passagem aos desígnios de Deus. E o melhor, com fotografias e documentos. Horas mais tarde, após um farto café, de quase fim de tarde, despedimo-nos, do bom e culto anfitrião, com a certeza de que tal encontro seria o nascedouro de uma bela amizade.
Quando do lançamento da biografia de José Asmar, cujo evento aconteceu entre as paredes da sede da Academia Goiana de Letras, mais uma vez, João Asmar falou em nome da família, agradecendo pela construção do livro, encantando a todos os presentes com a poesia da sua fala.
Quis o destino, e a ele agradeço providenciar o nosso reencontro, quando o empresário Jorginho Hajjar me convidou para escrever a importante história da presença da colônia sírio-libanesa na cidade de Anápolis, que a primeira parada para abastecimento de informações, fosse, naturalmente, sem muito o que pensar, a residência do descendente árabe mais importante da colônia anapolina, importância que não se mede em valores materiais, mas em valores cristãos, morais e intelectuais.
Relatada a ideia, João Asmar nos disse:
A metade do livro que vocês pretendem escrever já está pronta.
De fato, Asmar laborava as últimas instâncias da finalização do livro que abarca o ciclo pioneiro dos árabes que desembarcaram em Anápolis.
Depois de nos dar norte, sul, leste e oeste sobre os "batrícios" em Anápolis, decidimos em comum acordo, fazermos, de forma integrada, o levantamento memorial árabe-anapolino em dois livros, sendo o primeiro, o dele, envolvendo a chegada do primeiro imigrante até a inauguração da Estação Ferroviária de Anápolis, ocorrida em 7 de setembro de 1935, vindo, na sequência, o nosso livro, a partir daquela data até 2009.
Com a inteligência e a fantástica memória de João Asmar a bordo, saímos a campo, eu, o jornalista Guilherme Verano e, quando era permitido por sua agenda, o idealizador deste memorial árabe, Jorginho Hajjar, colocando no bornal do projeto, dezenas de entrevistas, cuidadosamente gravadas.
Fiquei envaidecido com o convite do amigo João Asmar, para prefaciar este livro, que abarca a primeira fase do nosso projeto que tem o sugestivo nome Os árabes no sertão, dedicado, postumamente, à esposa, Maria Lúcia Rocha Asmar; aos pais, Abrahão Jorge Asmar e Amina Jorge Asmar; aos irmãos, Miguel, Adélia, Amélia, José e Jorge, cujo conteúdo revela o triste contexto histórico, econômico e político da razão da imigração árabe para as Américas, principalmente a do Norte e do Sul. Fala da necessidade da mudança de nomes e sobrenomes para melhor diálogo com a cultura brasileira. A profissão fartamente adotada pelos imigrantes - a mascateação - e o seu relato particular de acompanhar o pai (ele com apenas dez anos de idade) no exercício de sua lida, nos beirais dos anos 30, do século passado.
As diferenças religiosas de culto, maronita, ortodoxo, maometano, num país eminentemente católico. A integração familiar e a solidariedade entre os árabes que aqui estavam havia algum tempo com os que chegavam. A importância que teve a gastronomia árabe, dela ressaltando o quibe. Segundo o autor, essa iguaria atuou com verdadeiro embaixador para a integração com os brasileiros. Depois de relatar a forma de fazer uma série de outros pratos dessa apaixonante culinária, que ele assistiu aos ritos dos seus preparativos, observando a sua mãe Amina registra 100 árabes dessa primeira fase, assentados em ordem alfabética e não na cronologia por data de chegada de cada um a Anápolis. Entre os quais, Joaquim Spir (Charrud), o primeiro deles que chegou à nossa Santana das Antas, em 1903, e que viria a ser padrinho de muitos filhos de árabes, e quem o ensinou a jogar damas. Todos esses registros elaborados de forma olhos nos olhos do autor com os personagens com os quais viveu intensamente.
No crepúsculo do livro, numa linguagem saborosa, finaliza a obra com 21 crônicas envolvendo vários "batrícios", revelando o bom humor tão presente na cultura árabe, ainda os sofrimentos pelos quais passaram e, sobretudo, ofertando-nos um pouco da sua rica filosofia.
Este livro pelo teor coletivo memorial, além de resgatar o passo a passo do árabe na construção de Anápolis, é um presente aos milhares dos seus descendentes, que saberão e se orgulharão dos seus antepassados, documentados para sempre, nestas páginas. Particularmente, eu que nasci ilhado de árabes por todos os lados, sinto- me plenamente envaidecido, porque não dizer, imorrível, participando desta história.

 

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