Cadastre seu email agora mesmo para receber novidades por email

O que você achou do novo website da Academia Goiana de Letras?

Outubro 2010
O poço assombrado

Gabriel Nascente

Toda história tem uma trama, tem um fio. E a memória puxa o fio; daí entro eu: destramo. Eriça-me lembrar, oh!, com doce lucidez. Os dezembros que se foram. O sol de sempre, traspassoso. As chuvas. O bisbilho do vento. A volta inexorável do lusco fusco. Mutações. Defuntos e letícias. E cada vez mais flébeis as cordas do coração no tempo. O tempo. Gume invisível que nos corta, sepultando pedaços dos nossos sorrisos na aparição das rugas. Em suma: todas as estátuas de ouro que erguemos no templo dos nossos sonhos, são de areia, nada mais que faíscas da psiquê, constelando os subterrâneos do inconsciente.
Somos carne para morrer, já nos ensinava o velho pensador, filósofo Montezuma. O Joaquim de Montezuma lá de Lisboa.
Doravante, meus pios leitores, narrar histórias vou. Contar caso, é: Remontar paisagens e momentos. Respirar pelas janelas da lembrança. Mirado o alvo, passeio à vista. Vamos, que o propósito não é por desoras. É dentro da hora, antes que o tempo sucumba, sem aviso. Ave-Maria, curúis! A inspiração não me põe para escrever.
Éramos lá - isso eu relembro e narro - ­pequena malta de párvulos malucos, em sua maioria lampinhos desbarbados, nem crianças ao tanto, mas de boa e sadia esperteza, capazes de estripulias ­traquinas como o cão gosta. Efebos, enfim, vindos de todas as partes, esperançosos, todos, no afã de seus ­designos expectantes de crescerem (ser alguém na vida) a esquentar bancos de aulas, na velha Escola Federal Agrícola de Urutaí; onde, nos outroras, como já disse, em priscos anos, estudei. Ah, sem fiaus, pela luz do ensino, por ali passei.
A aula sobre anatomia (noções preliminares) dos animais estava um saco. Todo mundo impaciente na sala. Um calor de brasas expostas, asfixiante.
— Vamos, Curicaquinha, dar o fora daqui. Ocê num acha que o melhor pra nois é espantar esse calorão do inferno, é irmos tomar uns banhos lá no poço da Maria Talau?
— Eu ... não. Tô com medo. Aquilo ali é banheira de Satanás.
— Por que, infeliz? Me diga, banho de córrego faz mal?
— De encontrar ali, boiando sobre as águas o espírito da Maria Talau. Vai vê que ocê num sabe. Mas ela morreu ali, naquele poço. Só não se sabe se foi afogamento ou suicídio. Uns dizem que foi por causa de uma de ponta que ela deu, bem de tardinha quando o sol se punha, e bateu de cheio com a cabeça numa pedra, enorme, no fundo escuro das águas. Pior do que isso, eu conheço gente que foi se banhar lá, e de cara com o espírito da morta, fazendo careta sobre as águas. Um horror. Eu, heim, lá tem assombração!
Então, apelei-me por Zégamela: “E ocê, Zé, topa?”
— Topo sim, vamos. Sai ocê na frente, que eu vou atrás, despistando o professor. Inventando uma desculpa. Fala que esta com dor de barriga. Anda, vai ...
Tomar banho no poço da Maria Talau era algo de bastante frugal, refrescante e poético. Por isso, poucos recusavam convites para uma esticada até o riacho, correndo silencioso e sereno, pelo manso destino de suas esverdeadas xiriricas, tão translúcidas eram as águas que pareciam brotar de uma obra de arte. O Zégamela, alma de cão, gozador, orelhas de concha, achavascado, topou, e com ele mais de uns dez molecotes. Fomos, proseando pequenidades de diz que me diz que, pataaratices, entrementes.
 

| Mais


Rua 20 nº 175, Centro. Goiânia Goiás - CEP: 74020-170
Telefones: 62 32248096 / 62 32248096
Copyright 2013 - Todos os direitos reservados